Peso e saúde: a construção de uma doença

Hoje fui caminhar com meu cachorro e vi uma quantidade enorme de gordinhas se exercitando, pedalando, tomando o sol e pensei: como podem fazer essas mulheres acreditarem que não são saudáveis? Se você é gordinha, já ouviu diversas vezes a frase: “Nós nos preocupamos com a sua saúde”. Afinal, a gordura é diretamente associada a doença e milhares de estudos tentam provar que os gordos estão com os dias contados. No entanto, pesquisas recentes mostram que pessoas que estão acima do peso não correm necessariamente maior risco de morte a curto prazo do que os indivíduos com peso normal. Pesquisadores da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, que acompanharam mais de 30 mil americanos e canadenses obesos, provaram que a obesidade não afeta todas as pessoas da mesma forma. Obesos que não tenham outros fatores de risco, como hipertensão e diabetes, podem viver exatamente o mesmo número de anos que pessoas de Índice de Massa Corpórea (IMC) normal.

Isso significa que não é possivel definir se uma pessoa é saudável ou não baseando-se apenas em seu peso.  Em entrevista a revista TPM, a nutricionista Marle Alvarenga, diretora do Grupo Especializado em Nutrição e Transtornos Alimentares (Genta), afirma que “o que mede a saúde de alguém não é o peso. Mas a taxa de açúcar no sangue, a hereditariedade, uma série de fatores que não podem ser medidos pelo peso. Muitas vezes emagrecer pode ser tudo, menos saudável.  E é preciso entender que ser magra não tem nenhuma ligação com ser saudável.” Independente de ser gorda ou magra, todo mundo precisa comer alimentos saudáveis. Comer alimentos ricos em carboidrato, por exemplo,  eleva os níveis de açúcar no sangue mais rapidamente e  aumenta as chances de diabete. Por isso, um magro que se alimenta basicamente de carboidratos também corre perigo.

Dito isso, vamos agora pensar um pouco mais além sobre o discurso médico aplicado aos corpos. Já disseram que a medicina é uma ciência de grandes verdades transitórias e  isso faz bastante sentido nesse caso. No séc. XIX, ou médicos, os higienistas, os psiquiatras e psicanalistas criaram um conjunto de medidas normatizadoras que definiam o papel da mulher a partir de um viés biológico. Dessa forma, mulheres que não se recusassem em cumprir sua “função natural” da maternidade , fossem sexualmente ativas, tivesse comportamente mais agressivo ou sentissem atração por pessoas do mesmo sexo eram consideradas comportamentos desviantes e estavam inscritas como doentes mentais.  Para esses cientistas, a menstruação, os hormônios e a gravidez faziam com que a mulher estivesse mais propensa a loucura do que homem.

Ao longo do anos, a  histeria, a neurose eram diagnosticados como enfermidades femininas, provocadas pelo meio hormonal. Não foi à toa que Simone de Beauvoir, em o Segundo Sexo, lembrou a todos que “o homem esquece soberbamente que sua anatomia também comporta hormônios”. O controle sobre o corpo feminino sempre esteve presente através de enunciados fisiológicos que estabeleciam os padrões de  normalidade. Nesse sentido, como bem mostra Beauvoir, o corpo feminino foi e continua sendo submetido constantemente a interferências, tabus, valores, costumes. O  que significa que ele precisa se adequar ao discurso vigente sobre o que é normal e, dessa forma, corporificar a ideologia dominante. Portanto, transformar a gorda em uma anomalia faz parte de  um contexto histórico e cultural muito especifico.  A publicidade e o mercado ajudam a criar um ideal de corpo pefeito para que as mulheres consumam cada vez com a ditadura do corpo. Produtos lights, diets, a indústria da moda e dos remédios lucram cada vez com essa busca insana por um corpo esbelto e  aparentemente “saudável”. Sabendo disso, minha amiga GG, saia para caminhar, divirta-se, alimente-se bem e viva com suas curvas de forma a garantir sempre o seu bem estar fisico e mental!

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