Corpo: uma questão de classe?

Essa semana, fui arrumar minha estante e encontrei um artigo na TPM muito interessante de 2010, que gostaria de compartilhar aqui. A psicanalista Joana de Vilhena Novaes, coordenadora do Núcleo de Doenças da Beleza, da PUC-RJ, fez uma pesquisa interessante sobre os padrões estéticos em diferentes camadas sociais. De acordo com o estudo, mulheres pobres têm uma relação muito mais lúdica com o corpo. Não deixam de fazer nada porque estão gordinhas, enquanto as mulheres de classe média se escondem quando estou acima do peso.

Isso não quer dizer, que as mulheres do subúrbio não tenham consciência que estão fora do padrão. Elas sabem que estão gordas, mas isso não é impeditivo para usarem biquíni, mostrarem o corpo ou se sentirem sexies. “Sei que eu tô gorda, mas não deixo de ouvir ‘gostosa’, o nego não deixa de comparecer sem dó nem piedade, eu não deixo de passar o rodo geral”. Joana descobriu que as mulheres das classes mais ricas usam um discurso mais sofisticado para justificar sacrifícios, como plásticas e malhação, para elas mesmas. “Nas favelas, elas dizem claramente que fazem as intervenções para ‘ficar gostosas’, numa sexualidade vivida de maneira mais plena”, observa.

O que pode ser visto em qualquer praia carioca é que as mulheres mais pobres não estão aprisionadas nesse processo do culto ao corpo. Elas usam fio dental, namoram, dançam, bebem e transam sem se preocupar tanto com o olhar dos outros. “Privação e disciplina são valores máximos das classes altas. Nas classes populares, a privação é associada à pobreza, e a gordura à prosperidade. Uma mulher da favela me disse que não ia ‘viver de alface’ porque iam achar que estava na miséria.” Para a psicanalista, “entre as ricas, qualquer sacrifício vale a pena para ganhar a magreza das modelos. Entre as mais pobres, o bonito mesmo é o corpo farto e curvilíneo. O que diverge entre os grupos é o sofrimento: as ricas se escondem sob roupas largas; as pobres exibem a gordura sem pudor em microshorts e tops justos.” Segundo ela, isso não impede que também malhem e fiquem nas filas dos hospitais públicos para fazer plástica estética. No entanto, elas não precisam se livrar do peso para serem admiradas ou exercerem de forma plena sua sexualidade. Mulheres da periferia sabem que o prazer nada tem a ver com o tamanho do corpo.

Para as classes médias e altas, o culto ao corpo tem a ver com os cuidados de si, com um bom gerenciamento do corpo. Por isso, para eles não basta ter um corpo magro. É preciso ter um corpo atlético,malhado, definido, e, acima de tudo, bronzeado. O corpo circunscreve as questões de classe. Ele identifica a pessoa a um grupo e o distingue de outros. O corpo ‘trabalhado’, ‘malhado’, ‘sarado’ é um sinal de diferenciação social como comprar um carro ou ter uma casa. A antropóloga Mirian Goldenberg, autora do livro “O corpo como capital”, afirma que “no Brasil, o corpo é um capital, um modelo de riqueza, a mais desejada pelos indivíduos das camadas médias, que percebem o corpo como um importante veículo de ascensão social e como capital no mercado de trabalho, no mercado de casamento e no mercado sexual. A busca do corpo ‘sarado’ é, para os adeptos do culto à beleza, uma luta contra a morte simbólica imposta aos que não se disciplinam e se enquadram aos padrões.

Sugestão dos Mino # 4: Exemplo de Peso

Marcelo Melo sugeriu para o Blog um caso que tem tido enorme repercussão nos Estados Unidos: a apresentadora Jennifer Livingston, da emissora de TV “WKBT”, chamou a atenção da midia de todo país ao se defender “ao vivo” de um telespactador que a criticava pelo excesso de peso, considerando-a um mau exemplo para os jovens. De acordo com o e-mail do telespectador, “a obesidade é uma das piores escolhas que uma pessoa pode fazer e um dos hábitos mais perigosos para se manter. Portanto, você deve reconsiderar a sua responsabilidade como uma personalidade pública para apresentar e promover um estilo de vida saudável”.

Livingston falou ao programa  “CBS This Morning” na ultima quarta-feira e disse que decidiu falar “ao vivo” sobre essa ofensa pessoal porque esse tipo de comportamento a deixa assustada. “Precisamos ensinar nossas crianças a serem boas, e não críticas, e conseguimos isso por meio de exemplos. Somos melhores do que esse e-mail”. No final, a apresentadora agradeceu ao apoio que recebeu nas redes sociais e dirigiu um discurso às crianças. “Para todas as crianças que se sentem incomodadas, com seu peso, a cor da sua pele, suas preferências sexuais, suas deficiências físicas ou até as espinhas no seu rosto: não sejam derrotadas por bullies. As palavras cruéis de um não são nada comparadas aos gritos de muitos.”

A resposta da apresentadora se tornou um viral e já ultrapassou 8 milhões de visualizações. Confira aqui a resposta da apresentadora ao bullying:

Pare de Odiar seu Corpo!

Pare de Odiar seu Corpo!

Imagem

Perdas e ganhos da mulher moderna # 2

Na segunda parte da entrevista com Mary Del Priore, a historiadora afirma que as mulheres ganharam poder ao longo do tempo, mas se tornaram submissas ao espelho e aos padrões de beleza. Mary del Priori mostra a origem da Lipofobia no Brasil e as consequências disso para as mulheres brasileiras.

O que você pensa sobre isso? Deixe aqui a sua opinião:

Saiba como proceder em caso de assédio moral

Essa semana estava navegando no Facebook e encontrei um antigo colega de trabalho com uma piada super preconceituosa sobre gordinhas. Ele postou a foto de uma gordinha e depois substituiu a foto da moça por um monte de pneus empilhados. Fiquei tão chocada com a grosseria, que simplesmente removi a figura da minha rede. O bom da rede social é que a gente pode se proteger dos pensamentos tacanhos e das agressões gratuitas simplesmente excluindo ou bloqueando quem faz esse tipo de gracinha. Mas, o que fazer na vida real quando você se sente vítima da discriminação?

Esse mês, a Justiça do Trabalho condenou, em primeira instância, uma empresa de mototáxi a indenizar por dano moral uma ex-funcionária alvo de humilhações por ser obesa. A secretária Nahla Camila do Espírito Santo dos Santos, 29, denunciou uma colega de trabalho que fazia desenhos ridicularizando seu peso. Durante um ano, a secretária aguentou as brincadeiras, mas um dia a colega colou no banheiro o desenho de um elefante, com a frase: ‘Um elefante incomoda muita gente’.

Nahla disse que começou um tratamento psicológico em razão das agressões constantes e sua psicóloga recomendou que ela procurasse a Justiça. Na Polícia, ela foi orientada a notificar, por escrito, o dono da empresa sobre o problema. Mas, nenhuma atitude foi tomada efetivamente e a outra funcionária continuou fazendo as piadas. Por isso, ela saiu do emprego e entrou numa ação contra a empresa por danos morais.

O juiz Gustavo Triandafelides Balthazar entendeu que os danos morais sofridos pela ex-secretária foram comprovados através das provas materiais e o dono foi obrigado a indenizá-la. De acordo com o Juiz, “cabe ao empregador propiciar um ambiente de trabalho saudável, tomando as medidas necessárias, inclusive fiscalizadoras, para que nenhum trabalhador tenha sua dignidade abalada“.

Por isso, caso você conviva com uma situação semelhante, veja como proceder:

  •  Resista: anote com detalhes toda as humilhações sofridas (dia, mês, ano, hora, local ou setor, nome do agressor, colegas que testemunharam, conteúdo da conversa e o que mais você achar necessário).
  •  Dê visibilidade, procurando a ajuda dos colegas, principalmente daqueles que testemunharam o fato ou que já sofreram humilhações do agressor.
  •  Procure apoio: ele é fundamental dentro e fora da empresa
  • Evite conversar com o agressor, sem testemunhas. Converse com o agressor sempre acompanhado de um colega de trabalho ou representante sindical.
  • Exija por escrito, explicações do ato agressor e permaneça com cópia da carta enviada ao D.P. ou R.H e da eventual resposta do agressor. Se possível mande sua carta registrada, por correio, guardando o recibo.
  • Procure seu sindicato e relatar o acontecido para diretores e outras instancias como: médicos ou advogados do sindicato assim como: Ministério Público, Justiça do Trabalho, Comissão de Direitos Humanos e Conselho Regional de Medicina (ver Resolução do Conselho Federal de Medicina n.1488/98 sobre saúde do trabalhador).
  • Recorra ao Centro de Referencia em Saúde dos Trabalhadores e conte a humilhação sofrida ao médico, assistente social ou psicólogo.
  • Busque apoio junto a familiares, amigos e colegas, pois o afeto e a solidariedade são fundamentais para recuperação da auto-estima, dignidade, identidade e cidadania.

Em busca da virgindade perdida…

Meu interesse sobre as questões do corpo começou por causa do Documentário finlandês Curvas Graciosas, que passou na  21a. Mostra Internacional Cinema, em 1997. Até hoje me vem imagens desse filme na cabeça e lamento nunca ter conseguido uma cópia dele. O filme foi muito delicado ao pensar a relação do corpo através do tempo, o que é envelhecer numa sociedade que cultua exageradamente o belo e  a  forma como cada mulher lida com esse processo. A diretora Kiti Luostarine nos provoca ao lembrar que, ao mesmo tempo, que olhamos horrorizados para outras culturas que controlam o corpo feminino, o nosso corpo é também constantemente vigiado, coagido e modificado pelas cirurgias plásticas. Dessa forma, ela compara a deformação nos pés das japonesas, por exemplo,  à deformação nos nossos seios, bundas e bocas através do enxerto de silicone, botox e afins.

Essa semana voltei a pensar no filme por causa das cirurgias íntimas. Recentemente, um artigo na Folha de São Paulo mostrou que a última moda nos centros cirúrgicos são os retoques na dita cuja. Isso mesmo, agora a febre do momento é fazer retoques na genitália feminina. Mas, afinal de contas para que? Depois  de aumentar os seios, colocar bunda, quebrar costelas,  deixar os lábios mais carnudos, o foco agora é reduzir as medidas genitais. Nos EUA, são feitas mais de 1,5 milhão de cirurgias íntimas. No Reino Unido, 1,2 milhão. No Brasil, médicos afirmam que houve um crescimento de 50% nos últimos dois anos.

Pessoalmente, eu acho que ninguém deve ser julgado por fazer qualquer modificação no corpo que tem ou gostaria de ter. Mas, as idéias e os valores que estão por trás destas cirurgias são bastante tristes. É tudo com base na ideia de normalização. Muito fascista porque elimina a possibilidade de qualquer diferença. O que está em jogo é uma fabricação de um tipo ideal, definido pelas regras do consumo. A fabricação de um corpo em escala industrial, descartável, modelável e muito machista. Nesse sentido, o que significa padronizar também o nosso sexo? A antropóloga Thais Machado-Borges, do Instituto de Estudos Latino-Americanos da Universidade de Estocolmo, citada  na reportagem aponta que as revistas masculinas, os videos e as imagens da nudez feminina criam o modelo de normalidade também para a vagina. “Será que essas cirurgias podem transformar zonas erógenas em ‘paisagens’ onde reina o prazer?”, questiona.

Ao meu ver, não são “paisagens” que estão em jogo, mas territórios onde o Patriarcado reina. De acordo com os cirugiões, as brasileiras querem a vagina, com lábios de 1 cm a 1,5 cm. Afinal, qual o objetivo de deixar todas as vaginas com o molde “PP”? Para alguns, a cirurgia íntima reforça o modelo do órgão da mocinha virgem.  Numa época de relativa liberdade sexual, fazer uma cirurgia íntima tem qual significado? Será que não estamos criando o simulacro da pureza? A mulher que reduz sua genitália o faz para quê ou para quem? É lógico que o canal vaginal, ao longo do tempo, se abre e perde o que todos os homens gostam: um lugar apertadinho para entrar. Mas, por que isso tem que se tornar um problema? Será que os homens se submeteriam a uma cirurgia no pênis para nos dar mais prazer?

Não é só a cirurgia íntima que existe para aplacar os efeitos do tempo no corpo feminino. Mas, as implicações reais disso sobre as nossas mentes e os nossos corpos devem ser pensados e analisados criticamente. O que faz de nós pessoas “reais” não é a forma do nosso corpo, mas nossa humanidade básica. Quando perdemos peso, alteramos o nosso corpo ou tomamos a decisão muito pessoal de se submeter a cirurgia estética, estamos construindo nossa identidade à imagem e semelhança da nossa cultura. Indo um pouco mais além, nosso corpo se torna um artefato cultural, desenhado, construido e projetado para refletir os valores e  as questões de uma época. Se a redução da vagina se torna crescente em escala mundial, isso não significa que estamos reafirmando o controle sobre os nossos corpos e a nossa sexualidade? Depois de tantas conquistas sociais, econômicas e sexuais, reduzir a vagina para satisfazer o parceiro não é se submeter a busca de um modelo de virgindade perdido? Fica a questão.

Spencer Tunick: o corpo-paisagem

Há 20 anos, o fotógrafo nova-iorquino Spencer Tunick cria instalações de arte humana em todo o mundo, convocando milhares de voluntários para tirar as roupas diante das suas lentes. Seu objetivo é que “os indivíduos em massa, sem suas roupas, metamorfoseiam em uma nova forma.” Dessa forma, a nudez coletiva gera uma outra composição, onde os corpos humanos se misturam com a paisagem, ou se justapõem com a arquitetura local. Selecionei aqui algumas imagens das suas instalações para ver que belas paisagens dão o corpo humano.

Voluntários nus sobre geleira de Aletsch como parte de uma campanha ambiental sobre o aquecimento global, em 2007. A campanha organizada pelo Greenpeace pretendia chamar a atenção para o aquecimento global e a mudança climática

As cenas parecem mostrar a batalha entre a natureza e a cultura, usando diferentes panos de fundo, como centros cívicos ou tempestade de areia no desertos, os corpos se transformam em estrutura dos prédios ou em meras paisagens, fundindo-se como esculturas em novo gênero: corpo-espaço.  Os locais e as anatomias são unidos de forma sincronizada, conforme a imagem abaixo:

Milhares de pessoas nuas posaram no estádio de Viena Ernst-Happel, em 2008

Libertando o corpo do seu significado social é possível apresentar as  infinitas possibilidades da forma. Sem nenhuma implicação sexual, os nus são utilizados pelo artista  principalmente  para exploração das formas, contornos e texturas.  A relação do homem com o meio ambiente físico e social são a base de seu trabalho, que atualiza notavelmente a longa tradição do nu na arte. Mas, o aspecto mais valioso de sua obra é a experiência libertadora e de afirmação da vida que oferece aos seus participantes. Corpos que não são tratados de forma idealizada ou fetichizada, mas como parte integrante da natureza. Simples assim.

Entradas Mais Antigas Anteriores

Trezentos

Um espaço para mulheres que pensam Grande!

LuluzinhaCamp

Um espaço para mulheres que pensam Grande!

The Anarcho-Feminist

Um espaço para mulheres que pensam Grande!

Interatividade

Um espaço para mulheres que pensam Grande!

Um espaço para mulheres que pensam Grande!

Quadrinhos com Estrogênio

Um espaço para mulheres que pensam Grande!