Em busca da virgindade perdida…

Meu interesse sobre as questões do corpo começou por causa do Documentário finlandês Curvas Graciosas, que passou na  21a. Mostra Internacional Cinema, em 1997. Até hoje me vem imagens desse filme na cabeça e lamento nunca ter conseguido uma cópia dele. O filme foi muito delicado ao pensar a relação do corpo através do tempo, o que é envelhecer numa sociedade que cultua exageradamente o belo e  a  forma como cada mulher lida com esse processo. A diretora Kiti Luostarine nos provoca ao lembrar que, ao mesmo tempo, que olhamos horrorizados para outras culturas que controlam o corpo feminino, o nosso corpo é também constantemente vigiado, coagido e modificado pelas cirurgias plásticas. Dessa forma, ela compara a deformação nos pés das japonesas, por exemplo,  à deformação nos nossos seios, bundas e bocas através do enxerto de silicone, botox e afins.

Essa semana voltei a pensar no filme por causa das cirurgias íntimas. Recentemente, um artigo na Folha de São Paulo mostrou que a última moda nos centros cirúrgicos são os retoques na dita cuja. Isso mesmo, agora a febre do momento é fazer retoques na genitália feminina. Mas, afinal de contas para que? Depois  de aumentar os seios, colocar bunda, quebrar costelas,  deixar os lábios mais carnudos, o foco agora é reduzir as medidas genitais. Nos EUA, são feitas mais de 1,5 milhão de cirurgias íntimas. No Reino Unido, 1,2 milhão. No Brasil, médicos afirmam que houve um crescimento de 50% nos últimos dois anos.

Pessoalmente, eu acho que ninguém deve ser julgado por fazer qualquer modificação no corpo que tem ou gostaria de ter. Mas, as idéias e os valores que estão por trás destas cirurgias são bastante tristes. É tudo com base na ideia de normalização. Muito fascista porque elimina a possibilidade de qualquer diferença. O que está em jogo é uma fabricação de um tipo ideal, definido pelas regras do consumo. A fabricação de um corpo em escala industrial, descartável, modelável e muito machista. Nesse sentido, o que significa padronizar também o nosso sexo? A antropóloga Thais Machado-Borges, do Instituto de Estudos Latino-Americanos da Universidade de Estocolmo, citada  na reportagem aponta que as revistas masculinas, os videos e as imagens da nudez feminina criam o modelo de normalidade também para a vagina. “Será que essas cirurgias podem transformar zonas erógenas em ‘paisagens’ onde reina o prazer?”, questiona.

Ao meu ver, não são “paisagens” que estão em jogo, mas territórios onde o Patriarcado reina. De acordo com os cirugiões, as brasileiras querem a vagina, com lábios de 1 cm a 1,5 cm. Afinal, qual o objetivo de deixar todas as vaginas com o molde “PP”? Para alguns, a cirurgia íntima reforça o modelo do órgão da mocinha virgem.  Numa época de relativa liberdade sexual, fazer uma cirurgia íntima tem qual significado? Será que não estamos criando o simulacro da pureza? A mulher que reduz sua genitália o faz para quê ou para quem? É lógico que o canal vaginal, ao longo do tempo, se abre e perde o que todos os homens gostam: um lugar apertadinho para entrar. Mas, por que isso tem que se tornar um problema? Será que os homens se submeteriam a uma cirurgia no pênis para nos dar mais prazer?

Não é só a cirurgia íntima que existe para aplacar os efeitos do tempo no corpo feminino. Mas, as implicações reais disso sobre as nossas mentes e os nossos corpos devem ser pensados e analisados criticamente. O que faz de nós pessoas “reais” não é a forma do nosso corpo, mas nossa humanidade básica. Quando perdemos peso, alteramos o nosso corpo ou tomamos a decisão muito pessoal de se submeter a cirurgia estética, estamos construindo nossa identidade à imagem e semelhança da nossa cultura. Indo um pouco mais além, nosso corpo se torna um artefato cultural, desenhado, construido e projetado para refletir os valores e  as questões de uma época. Se a redução da vagina se torna crescente em escala mundial, isso não significa que estamos reafirmando o controle sobre os nossos corpos e a nossa sexualidade? Depois de tantas conquistas sociais, econômicas e sexuais, reduzir a vagina para satisfazer o parceiro não é se submeter a busca de um modelo de virgindade perdido? Fica a questão.

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4 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Magô
    set 12, 2012 @ 14:02:49

    É muito triste que sempre a mudança seja estética como consequência de moldes esteriótipos que reinam no mundo fantasioso da perfeição, Perfeição essa abstrata, pois não se baseia em lógica, apenas artefatos culturais!

    Muito bom o texto, como sempre!

    Responder

    • abbsaraiva
      set 12, 2012 @ 22:50:12

      Certissima, Mago… Pior quando essa ideia de perfeiçao acaba interferido diretamente nas nossas vidas, criando hierarquias de valores e definindo os nossos papeis no mundo. Muito louco isso! Afinal, quem ve vagina nao ve coraçao. 😉

      Responder

  2. Ana
    set 12, 2012 @ 21:22:35

    Causa estranhamento o fato de que a cirurgia íntima possa reduzir a sensibilidade nesta zona erógena, como afirmam os próprios médicos. A ideia de padronização dos corpos, mesmo que isso signifique abir mão do prazer, é muito chocante. A sexualidade desloca-se do próprio corpo para uma ideia de imagem e de performance, em que vale mais, talvez, parecer com uma virgem do que curtir o momento. Bem triste.

    Responder

    • abbsaraiva
      set 12, 2012 @ 22:54:29

      Essa historia toda eh muito chocante. Achei bacana uma frase do texto da Folha: “o que é natural já não é o normal”. Vc tem dimensão do absurdo que é isso? No mundo pos humano, nos tornamos bonecas de modelar onde se coloca e tira qualquer “peça” do corpo como se fosse realmente um encaixe.

      Responder

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