Sobrevivendo a violência nossa de cada dia…

Uma grande amiga me perguntou se eu desisti de ser magra. Olhei sem entender muito bem a pergunta e ela me indagou mais uma vez: “se você pudesse escolher seria magra ou gorda”? Respondi que isso não era mais uma questão para mim, mas entendi o seu incômodo. Ela que sempre foi uma mulher gorda, conseguiu emagrecer dezenas de quilos e essa vitória garantiu muitas conquistas, é claro. Mas, o que incomoda é o mecanismo pelo qual ela me olha e se sente no direito de falar para mim: EMAGREÇA! No fundo, ela está aplicando em mim a disciplina social e me ensinando uma lição: “o seu corpo e/ou comportamento são inaceitáveis. Por isso, faça como eu: emagreça”!

Qualquer pessoa que transgrida as normas sociais precisa se adequar as regras de boa convivência.  Portanto, tem que aceitar as cobranças, fazer o famoso “ouvido de snoopy”  e sentir-se feliz se for aceito pelo ambiente em que circula. Se a pessoa rejeita a invisibilidade social e corporal, ela precisa ser lembrada deste olhar social onisciente e deve ser punida para que não transgrida a norma novamente. Essa é a razão pela qual um sujeito se sente no direito de gritar “Balofa”, quando vê uma gordinha na rua. Ou de fazer  piadas, se uma gordinha está livre, leve e solta de biquíni na  praia. Ou, como lembrou uma outra amiga que vai casar, de ser cobrada para entrar no vestido de noiva porque é inadmissível que ela se case com os quilos a mais.

Em entrevista à Tpm, a Filósofa Marcia Tiburi afirma que o corpo é visto como religião e como tal exige o auto-sacrificio.  “Por isso, uma mulher que não faça dieta é vista como ‘desleixada’. Se ela não se sacrifica, é como se fosse infiel. A gordura é vista como excesso. O sacrifício, seja na academia ou para fazer dietas bizarras, é muito valorizado. Se você não faz esse sacrifício, é visto como um ser menor.” O pecado, portanto, é não se sujeitar a regra da maioria. Não pretendo julgar aqui minha amiga porque sei o quanto a obesidade foi uma questão para ela. Mas, só espero que isso não a torne míope para outras possibilidades.

Uma das melhores ferramentas que temos à nossa disposição para viver além dos próprio corpos – e aprender sobre eles, vindo a deliciar-se com eles – é a experiência. Estou falando sobre a “exploração” ou “experimentação”, chame como quiser, que  se pode ter com o corpo enxergando-o tal como ele é, sem pré-julgamentos, criticas ou desculpas. Comece de uma forma simples: usando um espelho para examinar a si mesma. Deixe sua mente aberta e analise cada parte do seu corpo. Descubra detalhes desconhecidos, olhe com generosidade para si, encontre belezas e curvas interessantes, encare o que você acha feio! Garanto que vai ser uma experiência avassaladora.  Primeiro, vai ter vontade de sair correndo, depois vai chorar, xingar, se maldizer. Mas, de repente, você descobre que é sexy, que tem um colo lindo, uma pele macia, uma bunda incrível e você se vê de repente admirando aquele corpo, que antes parecia detestável.

O segundo passo é se deixar ver.  Jogar fora as roupas pretas, escolher roupas mais ousadas, olhar as pessoas na rua sem medo e descobrir que tem um monte de gente que te deseja e que te quer. Vamos para o terceiro passo, então: permita-se ser tocada, amada, acariciada e aprenda que  é possível ser feliz, ter prazer e fazer um denguinho gostoso, independente dos ponteiros da balança…. Não  é tarefa fácil. Mas, é extremamente libertador quando se permite vivenciar isso. Você vai se questionar se não é mais fácil emagrecer do que lidar com as pequenas violências do dia-a-dia, mas o que garanto  é que uma dia você vai perceber que a única coisa ruim sobre os corpos humanos é a falta de conhecimento sobre eles. Você pode  lutar contra uma cultura obcecada com um padrão de beleza incrivelmente estreita ou viver esperando que uma dieta milagrosa a leve para o mundo perfeito. Mas, nada disso tem sentido se a sua autoestima estiver diretamente vinculado ao olhar – cruel – dos outros. Por isso, entre ser gorda ou ser magra, escolha ser FELIZ!

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3 Comentários (+adicionar seu?)

  1. Alê Balles
    set 06, 2012 @ 22:51:04

    Emocionada. beijo grande, Alê

    Responder

  2. Guiomar Soares Ferreira
    abr 28, 2015 @ 22:02:11

    A GENTE PRECISA DEIXAR QUE AS PESSOAS TOMEM SUAS DECISÕES, PRINCIPALMENTE AS CRIANÇAS. SE QUERES DAR UM TOQUE SOBRE SUA VIDA SEU CORPO VAI MAIS DEVAGAR AQOS POUCOS COM ELAS OU ELAS PERDEM ATÉ A VONTADE DE SAIR, ESTUDAR, BRINCAR4, ESTAR COM SUAS AMOGUINHAS.

    Responder

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