Os diferentes tons da dominação

Estou às voltas com o tema dominação, em função do livro  “Cinquenta Tons de Cinza“, o primeiro volume da trilogia de E. L. James. Li a coluna de Contardo Calligaris na Folha e uma questão não me saiu da cabeça desde então: o que faz uma pessoa desejar ser aniquilada por outra? Em busca de respostas, comecei a ler o livro e cheguei a conclusão que essa fantasia só nos interessa porque nos constitui.  Tanto é que o livro tornou-se um fenômeno literário que já bateu recordes de vendas, com mais de 3,6 milhões de exemplares vendidos, além de ser  traduzido para idiomas, como chinês, russo, sérvio e vietnamita.

Nos Estados Unidos, grupos de mulheres que sofrem violência doméstica planejam queimar cópias de “Cinquenta Tons de Cinza”, segundo o jornal britânico “The Guardian”. As feministas acusam o livro de incitar a violência contra as mulheres, “ao oferecer um guia completo de como torturá-las”. No entanto, praticantes do sadomasoquismo afirmam que esse tipo de sexo é uma forma de transgredir o sexo normativo e politicamente correto.  Uma possibilidade de se entregar ao aniquilamento do próprio desejo.  Resta-nos saber quais as implicações reais desse “perder-se” no outro para as mulheres.

O romance conta a história do relacionamento sadomasoquista entre o bilionário Christian Grey e a estudante Anastasia Steele. A estudante é inexperiente e descobre o sexo com Christian, mas vive o conflito entre manter o romance com ele, por quem está apaixonada, e abrir mão da própria autonomia no papel da submissa. No entanto, em alguns momentos fica claro que é Grey quem se torna escravo desse desejo, pois não consegue se relacionar de outra maneira. O livro é interessante exatamente por tratar das questões do sexo e da dominação em suas nuances. Há um gradiente das práticas violentas envolvidas numa relação sadomasoquista e momento em que os próprios papeis são colocados em cheque. Como bem lembra Calligaris,  “a fantasia é um objeto de negociação, não só dentro do casal (entre o que você gosta e o que eu aceito –e vice-versa), mas sobretudo no âmago do indivíduo, entre o que a fantasia de cada um imagina e o que cada um, de fato, aguenta”. 

Christian e Anastacia discutem os termos das relações, vão se descobrindo, conhecendo os segredos um do outro e estabelecendo os limites desse relacionamento. Mas, não consigo parar de pensar: até quando? Depois de viver uma situação de violência – mesmo que consentida – é possível deixar essa experiência somente entre quatro paredes? Os envolvidos – tanto o dominador quanto a escrava – conseguem de fato separar a fantasia da “vida real”? Se sim, pergunto mais uma vez: até quando?

A antropóloga Judith Butler afirma que ninguém faz o gênero sozinho. “O gênero é uma prática de improvisação em um cenário de constrangimentos.” Na relação de dominação representada no livro, o casal encena a desigualdade entre os sexos, reforçando  e fazendo uma paródia dos modelos que demarcam a diferença entre o “ativo” e a “passiva”. A escrava sexual tem que estar disponível sempre que ele quiser, não pode se negar a atendê-lo, precisa prestar contas sobre o que come, quantas horas dorme, sobre o que veste, enfim, ela outorga para o amante o controle total sobre o seu próprio corpo. Nesse contexto, a pessoa consegue viver fora do sexo?  Ainda que seja um acordo que pressupõe o consentimento, a reciprocidade e a performance é possível demarcar tão claramente os limites entre o prazer e o perigo nesse contexto?

No livro, Christian é caracterizado como um dominador ‘romântico’, que respeita os limites da dor da parceira, nega-se a emprestá-la para outros dominadores e até abre mão de algumas regras para satisfazê-la. No entanto, mesmo nessas condições, a relação está baseada na violência (física ou psicológica) que o dominador exerce sobre “sua” parceira. É lógico que o papel da submissão não é uma prerrogativa do sexo feminino. Mas, entre homens o papel do submisso tem uma diferença fundamental: o poder simbólico do dinheiro. Quando um homem é submisso – seja na relação com um dominador ou com uma dominatrix – é ele quem paga a conta. E isso faz toda a diferença porque, no fundo, ele sabe que é ele quem define as regras do jogo. Numa relação heteronormativa a submissão da mulher é praticamente total, ela esta subjugada sexualmente, economicamente e fisicamente. Por isso, nesse sentido, a fantasia não é oposto do real: o corpo encena as relações entre violência, gênero e erotismo, reafirmando os diferentes tons de dominação que existem entre esses papeis.

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